está frio lá fora. pode-se notar pela janela quase embaçada, o cachorro quase tremendo– e as pernas dela quase cobertas com o cobertor que fica sobre o sofá.
ela pergunta para onde ele vai, ao vê-lo de casaco grosso, chaves nas mãos e um ipod shuffle com 456 músicas– agarrado junto ao bolso da camisa de flanela.
ele responde enquanto pesca os óculos escuros que está sobre a mesinha ao lado da porta:
- andar.
- andar?
- sim. andar.
- mas para algum lugar específico?
- não. vou pensar no caminho. talvez pare no miradouro para tomar uma cerveja.
- mas ainda é cedo.
- vou andando bem devagar. quando chegar lá, já será quase meio dia.
- mas e o frio? cerveja? e no miradouro? com este frio?
- acho que é por isso mesmo que eu vou.
- porque está frio?
- sim, não consigo aceitar muito bem o fato de uma estação do ano me dizer o que eu devo fazer ou não.
- mas você sabe que ninguém vai beber cerveja no miradouro nesta época do ano. não sabe?
- sei.
- mas é por teimosia? é pura teimosia que te faz sair agora nesse frio para tomar uma cerveja no único lugar em que nenhuma pessoa iria?
- pode-se dizer que é uma maneira que eu encontrei de pegar a vida no contrapé.
- contrapé?
- sim. ela, a vida, espera que eu fique em casa, tomando um vinho forte e agarrado numa tigela de sopa.
- e você vai pegar ela no contrapé e tomar uma cerveja no miradouro?
- sim.
- o contrapé.
- precisamente. o contrapé.
e lá foi ele. com a idéia fixa de pegar a vida no contrapé.
e ela, de longe, observava e pensava como não tinha muito como estranhar aquela atitude dele.
ou melhor, que deveria celebrar o fato de que ele seria a única pessoa na cidade que iria tomar uma cerveja estupidamente gelada no miradouro mais frequentado no verão, e que no inverno está praticamente abandonado. o contrapé fazia parte da maneira dele de ser.
afinal, foi precisamente ao pegar ela, no contrapé, na primeira noite que se encontraram, que ele conquistou ela e os dois estavam juntos.
na primeira vez que se encontraram num bar, enquanto vários homens naquela noite– ofereceram um drink para ela acompanhado de uma conversa óbvia– ele apenas olhou, olhou, e entre pausas e dois breves sorrisos, beijou ela.
e enquanto ele saia pela porta, ela abriu um breve sorriso de canto de boca e disse baixinho:
- a vida. (pausa) e o contrapé.

Quero que alguém me conquiste no contrapé…
)
“Bigode molhado” está sempre abrindo novos olhos; um despertar contínuo. Já é grande em São Paulo/BR.
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